Jorge Alberto era um rapaz trabalhador. Sempre o fora. E sensível. Diria até que os méritos alcançados em seu ofício dependiam quase que exclusivamente disso. Talvez por isto fosse conhecido por atirar-se em cada relacionamento como se respirar ou acordar no dia seguinte dependessem disso. Razão pela qual ficara tão desnorteado após a ruptura inesperada de sua última relação. Seu grande amor daquele momento resolvera ir tentar a sorte em águas estrangeiras.E com o Atlântico a separá-los ficava de fato complicado manter o romance. Decidiram romper de comum acordo.
Quer dizer, Jorge Alberto ficou com a sensação que decidiram por ele. No fundo, bem lá no fundo, naquele pedacinho escondido das entranhas que nos faz ter vontade de jogar tudo para o alto e sair correndo embaixo da chuva a gritar como gatos no cio, sua vontade era outra. Mas aprendera com o tempo, e com os vários relacionamentos anteriores que a palavra do outro tinha mais força que a sua.
Era sensível até demais, alguém diria. Tanto que optara por sufocar mais uma vez aquele eu rebelde que teimava em não deixá-lo dormir à noite. E porque entregar-se às mãos reparadoras de Morpheu era a única coisa que parecia impossível após a separação definitiva, fora atraído irremediavelmente para as noitadas regadas a campari e flertes baratos.
O negócio recém-estabelecido, montado na frente da casa onde vivia, começava a sofrer as conseqüências das noites em claro. Era fácil agora encontrar espaço na agenda lotada há poucas semanas atrás. Sua gerente-sócia-confidente sugerira que tirasse uns dias de folga. Ir ao cinema, ver o pôr-do-sol, quem sabe dar uma olhada naquele exposição maravilhosa daquele pintor recém-descoberto. Melhor ainda, comprar um carro novinho em folha, cheio de acessórios modernos, como queria há tanto tempo. Gastar sem dó nem piedade, acalentar-se. Talvez assim o coração resolvesse que era hora de partir para outra.
Mas nada resolvia. Achava até que as férias compulsórias pioraram a situação. Agora tinha mais tempo livre para chorar e revirar álbuns de fotografias dos momentos a dois. E as noitadas transformaram-se em raves intermináveis.
Até que uma madrugada, voltando para casa sabe-se lá quantos camparis depois, volante e mãos confundiram-se ao fazerem a última curva do caminho. Os pés não sabiam a diferença entre frear e acelerar e acabou por atropelar vários piquetes de ferro na calçada em frente ao hospital do exército localizado na mesma rua em que morava. Sabia que o estrago tinha sido grande pelo barulho do motor ao parar de vez. E pela fumaça que se insinuava entre os destroços do carro zero quilômetro comprado há menos de uma semana e ainda sem seguro.
Abriu a porta já em desespero quando percebeu que vários soldados o cercavam, todos munidos de fuzis e com caras de poucos amigos. A rua deserta, salvo pelos olhares curiosos e sonolentos de alguns vizinhos. Foi quando não se controlou mais. O fogo interno, aquele que mantinha aprisionado sob camadas e camadas de bom comportamento e sensibilidade, entrou em ebulição repentinamente. E Jorge Alberto explodiu. Rasgou a camisa em gesto dramático e de braços abertos e mãos espalmadas gritou valorosamente:
- MATA! MATA A BICHA! ACABA COM ELA! ACABA COM TUDO! NADA MAIS ME IMPORTA!
Dizem por aí que depois dessa Jorge Alberto se curou de vez. E que anda de namorado novo. Acho que um sargento do exército. Mas pode ser boato.
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sábado, fevereiro 02, 2008
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Curiosidade matou o gato...
- E aí? Gostou?
- Amiga, tá ótimo!
- Tá mesmo?
- Aff, com certeza. Ele vai amar!
- E se...
- Não tem nem se nem quem sabe. Impossível alguém não gostar. Só sendo louco.
- É, louco ele não é. Quer dizer, talvez por mim, né? (dá uma piscadinha marota)
- Por você? Eu sei bem pelo que ele é louco. E nesse quesito, meu bem, você dá show!
- Ai, amiga, tão bom ter você por perto. Juro que eu fiquei insegura dessa vez. Bateu aquela dúvida. Será que eu fiz bem?
- Ôxi, menina! Mas é claro que fez! Já disse que tá ótimo! Aliás, tá supremo!
- Supremo? E alguém ainda fala isso? Só você mesmo...
- Meu amor, onde eu assino para recomendar? Falei e tá falado. Ficou divino o ...
- Amiga, tá ótimo!
- Tá mesmo?
- Aff, com certeza. Ele vai amar!
- E se...
- Não tem nem se nem quem sabe. Impossível alguém não gostar. Só sendo louco.
- É, louco ele não é. Quer dizer, talvez por mim, né? (dá uma piscadinha marota)
- Por você? Eu sei bem pelo que ele é louco. E nesse quesito, meu bem, você dá show!
- Ai, amiga, tão bom ter você por perto. Juro que eu fiquei insegura dessa vez. Bateu aquela dúvida. Será que eu fiz bem?
- Ôxi, menina! Mas é claro que fez! Já disse que tá ótimo! Aliás, tá supremo!
- Supremo? E alguém ainda fala isso? Só você mesmo...
- Meu amor, onde eu assino para recomendar? Falei e tá falado. Ficou divino o ...
quinta-feira, dezembro 13, 2007
A carta
Agora era real. Acabara de receber a carta. Epílogo de tantas outras benfazejas, esta trazia a marca do descaminho.
Incrível é que tinham sido tão felizes juntos. As fotos não mentiam. Escancaravam a verdade dos passeios, dos longos feriados em pousadinhas deliciosas. Os presentes estavam ali, corajosamente acenando para um passado bem vivido e não tão distante assim. A geladeira cheia de frique-friques, incapaz de aborrecer com insignificâncias. Descongelar o freezer? Há muitos anos desconhecia este trabalho. Fogão com forno duplo, lava-louças, uma bela cozinha, sem dúvida. Aliás, todo o apartamento estava muitíssimo bem equipado. Podia dizer em alto e bom som que tinha "de um tudo".
Gastara muito. Sempre o fizera. Mas havia uma solução à mão em todos os momentos. E nunca se arrependera.
As cartas traziam mimos de toda sorte. Em vários momentos chegou a pensar que eram um só, tal a proximidade que mantinham. Sua confiança era tanta que por algum tempo as ignorava. Elas, as cartas. Paparicavam-na. Ofereceram-lhe prazeres e pecados. E se perdera em todos.
É fato, sentira-se iluminada. O mundo, ao alcance do seu desejo. E as cartas por muito tempo lhe impediram acreditar diferente.
Até hoje. Quer dizer, hoje surpreendeu-se quando notou a presença em sua caixa postal. Por um segundo, regozijou-se. Recuperou naquele breve espaço de tempo a alegria esquecida. Levou-a de encontro ao peito. Aqueceu-se de emoção. Naquele curtíssimo, transitório lapso temporal acreditou que tudo seria como antes. Quase esqueceu os meses sem correspondência alguma.
Mas alguma coisa a incomodava. A carta parecia diferente. Uma distância que não conhecia. Receava admitir a frieza daquele ente outrora tão cálido. Acomodou-a na bolsa. Tomou o ônibus não lembrava como. Sabia que torcera os dedos nervosamente durante todo o trajeto. Os degraus da escada que levavam ao apartamento eram infinitos. Sim, fora incapaz de manter a bela casa com piscina. A chave encontrou a fechadura com sofreguidão. Uma ansiedadade a impelia.
Encontrou a carta dentro da bolsa. E de repente não conseguia mais esperar. Rasgou o envelope fervorosamente, suplicava em seu íntimo por aqueles dias acalentados na memória. E a carta lhe dizia, sem qualquer preâmbulo...
Estava inscrita no Serviço de Proteção ao Crédito, definitivamente.
terça-feira, novembro 27, 2007
"Take off your coat..."
Chegou em casa sabe-se lá que horas. Vestido de seda, saltos altos, cabelos presos em um coque bem feito, batom encarnado, não traduziam o desalinho de seus pensamentos. Confusão de emoções. Entregara-se. E o cheiro que algumas horas antes lhe inebriara os sentidos, agora causava-lhe náuseas. Soltou a pequena bolsa de qualquer jeito sobre o sofá. Não conseguia decidir entre largar-se para sempre nas almofadas antes tão macias ou esfolar-se a pele sob o chuveiro quente. Saiu pela porta.
A noite esfriara. Sentia leves arrepios provocarem sua pele. Andava a esmo, os saltos marcavam o caminho, pareciam saber aonde chegar. O cheiro de maresia era cada vez mais forte. Tomou os degraus compassadamente, dirigia-se à praia deserta. Largou os sapatos. Os úmidos grãos de areia sob os pés faziam-lhe cócegas enquanto caminhava. Arrepiava-se cada vez mais intensamente. Inalou sofregamente o ar salgado da noite. Soltou os cabelos. A leve marola atraiu seus passos andarilhos. Deitou-se à beira do mar. As ondas invadiram o seu ventre. Dançaram juntas sob as estrelas.
Abandonou-se à solidão da madrugada. Nada mais importava. Explodiu em gozo único, forte, animal.
Os primeiros raios da manhã aqueciam o seu corpo. Sentia-se pura outra vez.
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